terça-feira, 10 de maio de 2011

BILINGÜISMO E EDUCAÇÃO DE SURDOS NO BRASIL



BILINGÜISMO E EDUCAÇÃO DE SURDOS NO BRASIL


     Oderlan Nóbrega*
Terezinha Pereira de França*



RESUMO: Este artigo tece algumas considerações sobre as especificidades que envolvem o bilingüismo na educação de pessoas surdas. Pelo fato de nascerem em famílias ouvintes, à maioria das crianças surdas cresce sem uma língua constituída, uma vez que a língua majoritária na modalidade falada, usada pela família, é inacessível às crianças surdas e a língua de sinais, acessível a elas, é desconhecida ou mesmo rejeitada pela família ouvinte. A proposta de uma educação bilíngüe, que contemple a Língua Brasileira de Sinais, como primeira língua, e a Língua Portuguesa, na modalidade escrita, como segunda língua, são apresentada e discutida neste artigo.
Palavras Chaves: Libras, Bilingüismo, Surdez.

ABSTRACT:  This article presents some considerations about the specificities of bilingualism in the education of deaf people. Because they were born into hearing families, a lot of deaf children grow up without an established language, since the majority language spoken by the family is inaccessible to the deaf children and the sign
Language which is accessible to them is unknown or even rejected by the hearing family. The proposal of a bilingual education, that contemplates the Brazilian Sign Language as the first language, and the Portuguese Language, in the written modality as the second language, is presented and discussed in this article.
Keywords: Libras, Bilingualism, Deafness.


         A Língua Brasileira de Sinais teve sua origem na França, durante o século XV. Eduard Huet (1822-1882), professor surdo francês, chegou ao Brasil em 1852 e, com o incentivo do imperador Dom Pedro II, fundou uma escola para surdos na cidade de Rio de Janeiro. O Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES) foi fundado em 26 de setembro de 1857, Órgão do Ministério da Educação Mec, tem como missão institucional a produção, o desenvolvimento e a divulgação de conhecimento científicos e tecnológicos na área da surdez em todo o território nacional, bem como subsidiar a política nacional de educação na perspectiva de promover e assegurar o desenvolvimento global da pessoa surda, sua plena socialização e o respeito as suas diferenças.
         Em 1911, o INES, seguindo a tendência mundial, estabeleceu o oralismo em todas as disciplinas esse método de ensino para surdos, defende a idéia de que a melhor forma de ensinar o surdo é através da língua oral. Mesmo assim, a língua de Sinais Brasileira sobreviveu até o fim da década de 1970, Quando chegou ao Brasil à comunicação total, que defende a utilização de qualquer recurso lingüístico, seja a língua de sinais, a linguagem oral ou códigos manuais, para facilitar a comunicação com pessoas surdas.  Na década seguinte, começou no Brasil o bilingüismo, que tem como pressuposto básico que o surdo deve ser bilíngüe, ou seja, deve adquirir como língua materna a língua de sinais, que é considerada a língua natural dos surdos e, como segunda língua, a língua oficial de seu país. Reconhecida pela Lingüística, a Língua Brasileira de Sinais apresenta todos os elementos pertinentes às línguas orais, como gramática, semântica, pragmática e sintaxe, preenchendo os requisitos científicos, lingüísticos, de uma língua. A língua dos surdos é no Brasil como meio legal de comunicação e expressão pela lei 10.436/2002 e pelo decreto 5. 626/2005, de 25 de abril de 2002.
            O objetivo deste trabalho é pesquisar sobre a necessidade de utilização de métodos bilíngües na educação de surdos nas escolas inclusivas, considerando-se que o ensino da linguagem escrita deve tornar o aluno autônomo na procura e uso de informação, permitindo-lhe a integração das informações à sua vida escolar e social.
          “De acordo com Goldfeld: “O conceito mais importante que a filosofia bilíngüe traz é de que os surdos formam uma comunidade, com cultura e língua própria”, Esta afirmação aponta para as especificidades das pessoas surdas, que têm  acesso ao mundo por meio, principalmente, da visão e da língua de sinais   onde exercer o mesmo papel da língua de modalidade oral, para os ouvintes. Isto não significa, porém, que a aprendizagem da língua oral não seja importante para o surdo. Na verdade, esse aprendizado é bastante desejado, embora não seja percebido como o único objetivo educacional do surdo, nem como uma possibilidade de minimizar as diferenças causadas pela surdez. Atualmente o bilingüismo está ocupando um grande espaço no cenário cientifico mundial. Nos EUA, Canadá, Suécia, Venezuela, Israel, entre outros países, existem diversas universidades pesquisando a Surdez e a língua de sinais sob a óptica da filosofia bilíngüe.
Não existe uma unanimidade entre profissionais biliguístas, em relação às teorias psicológicas e lingüísticas adotadas. Existem diversas pesquisas baseadas no sociointeracionismo (principalmente Vygotsky).
Nas questões educacionais os profissionais não são unânimes, existem diversas maneiras de aplicar o bilingüismo em escolas e clínicas especializadas.
Há, no entanto, duas maneiras distintas de definição da filosofia bilíngüe. A primeira acredita que a criança surda deve adquirir a língua de sinais e a modalidade oral da língua de seu país, sendo que posteriormente a criança deverá ser alfabetizada na língua oficial de seu país. Acredita ser necessário para o surdo adquirir a língua de sinais e a língua oficial de seu país apenas na modalidade escrita e não na oral.
Em relação à aquisição de linguagem, o bilingüismo afirma que a criança surda deve adquirir como a língua materna, a língua de sinais. Essa aquisição deve ocorrer, preferencialmente, pelo convívio da criança surda com outros surdos mais velhos, que dominem a língua de sinais.
É notório que mais de 90% dos surdos têm família ouvinte. Para que a criança tenha sucesso na aquisição da língua de sinais, é necessário que a família também aprenda esta língua para que as crianças possam utilizá-la para comunicar-se em casa.
A língua oral, que geralmente é a língua da família da criança surda, seria a segunda língua desta criança. A criança surda necessita de um atendimento especifico para poder aprender esta língua. Este aprendizado , ao contrário da língua de sinais, é muito lento, haja vista as dificuldades de um surdo em aprender uma língua oral, já que envolve recursos orais e auditivos, bloqueados por sua perda auditiva.
A língua oral, apesar de extremamente necessária para a vida do surdo, nunca será perfeitamente dominada por ele e esta será sempre uma língua estranha, não servindo a todas as necessidades do indivíduo e não podendo, por tanto, ser a língua materna da criança surda.
Rocha-Coutinho Considera, a este respeito, que:

“Um deficiente auditivo não pode adquirir uma língua falada como língua nativa porque ele não acesso a um sistema de monitoria que forneça um feedback constante para sua fala. A língua falada sempre será um fenômeno estranho para o surdo, nunca algo natural. Os deficientes auditivos, provavelmente experimentam um grau considerável de ansiedade  ao usar a língua oral porque eles não têm nenhuma forma de controlar a propriedade técnica e social de sua fala, exceto através de movimentos lábias e da relação de pessoas a sua fala. O deficiente auditivo apesar de contar com expressões faciais e movimentos corporais, não possui uma das fontes de informação mais rica da língua oral: monitorar sua própria fala e elaborar sutilezas através da entonação , volume de voz, etc. “(1986. p.79-80)”.


             A questão principal para o bilingüismo é a Surdez onde os estudos se preocupam em entender o surdo, sua cultura, sua forma singular de pensar, agir, e não apenas os aspectos biológicos à surdez ligados à surdez.

“Se por um lado, é possível afirmar que linguagem é pensamento tem origens separadas, por outro lado é possível admitir com Vigotsky que uma vez que estas forças se combinam começam a exercer entre si uma ação mútua. Assim, à medida que a criança se desenvolve, a linguagem pode servi como impulso para o pensamento. “(Fernandes, 1989. p.63)”.

            As realidades psicossocial, cultural e linguística devem ser consideradas pelos profissionais ao se propor o bilingüismo. A escola (professores, administradores e funcionários) deve estar preparada para adequar-se à realidade assumida e apresentar coerência diante do aluno e da sua família. A família deve conhecer detalhadamente a proposta para engajar-se adequadamente. Os profissionais que assumem a função de passarem a informações necessárias aos pais devem estar preparados para explicar que existe uma comunicação visual (a língua de sinais) que é adequada à criança surda, que essa língua permite que à criança tenha um desenvolvimento da linguagem análogo ao de crianças que ouvem que essas crianças podem ver sentir, tocar e descobrir o mundo em sua volta sem problemas, que existem comunidades de surdos; enfim, devem estar preparados para explicar aos pais que eles não estar diante a uma tragédia, mas diante de uma outras forma de comunicar que envolve uma cultura e uma língua visual-espacial.       Deve-se garantir à família a oportunidade de aprender sobre a cultura  surda e sua língua, com meta de modificar essa realidade para um futuro de inclusão.



Referências

QUADROS, Ronise. O tradutor e intérprete de língua de sinais brasileira e língua portuguesa. Brasília: Mec, 2007.
QUADROS, Ronise. Educação de surdos. Porto alegre: Artmed,1997.
VYGOTSKY, L.S. LURIA, A.R. & LEONTIEV, A. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizado. São Paulo: Ícone, 1988.
ROCHA-COUTINHO, M.L. Algumas considerações a respeito do uso da língua de sinais pelos deficientes auditivos. Trabalhos em lingüística aplicada, nº. 8. Campinas, 1986.
FERNANDES, E. Bilingüismo e Educação. Revista Espaço, ano III, nº. 4, INES. Rio de Janeiro
GOLDFELD, Márcia. A criança surda. São Paulo: Editora Plexus,2002.

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